Postado em: 14/05/2018 - Últimas Notícias

Vamos falar de inovação

[:pb]Por: Fernanda Romano

Foto: THINKSTOCK

Em tempos em que uma simples palavra pode determinar o sucesso de um ser humano ou de uma organização, é crucial parar para refletir sobre o significado da mesma

Um dos maiores desafios para as empresas atualmente é inovar. Se não for o primeiro ou segundo item do mapa estratégico da corporação, certamente é porque a mesma já está com problemas. E, por conta disso, inovação — que para alguns ainda parece um luxo – cai para terceiro ou quarto lugar.

Em muitas das minhas conversas — formais e informais — com executivos que participam da gestão de diversas companhias, quando falamos em inovação, uma das primeiras perguntas que faço é sobre o que essa palavra significa para essas pessoas e, mais importante, para essas organizações. Usualmente, encontro três possíveis cenários: novas oportunidades de receita, por meio do lançamento de produtos ou serviços em segmentos em que a empresa não atua significativamente; incremento de resultado ao enxergar o próximo capítulo do crescimento de seu negócio, mas em categorias já conhecidas e compreendidas pela operação; e, finalmente, novos processos de trabalho.

Apesar de parecer óbvio que essas visões não são excludentes, tenho a impressão de que muitas das empresas ainda olham inovação de forma muito vertical. Seja por busca de eficiência em aplicar o conceito em um contexto empresarial em que a palavra é citada diariamente (da reunião do comitê executivo ao bate-papo no café se fala nisso o tempo todo), seja porque essa é a crença da empresa. Ou ainda porque, seguindo a máxima do “em terra de cego quem tem um olho é rei”, alguém visto como expert assim o definiu e todos em volta aceitaram.

O fato é que vivemos tempos de águas turbulentas e tentar enxergar o que vem depois parece ser o mais próximo de buscar um norte quando a bússola nos falha. E, para a maior parte das pessoas, o novo é o que vem depois. Nascem, então, os estudos de inovação, os cargos e job descriptions dos líderes de inovação, os livros, os modelos de trabalho, as jornadas e as aulas e palestras. Tudo isso é uma tentativa de pessoas e organizações se educarem para conseguir prever e mesmo criar o novo. Porque, afinal de contas, em tempos de transformação, tudo o que sabemos ao certo é que o que vem depois é diferente do que o que existe hoje.

Ontem à noite, eu estava batendo um papo com três pessoas que estão diariamente envolvidas na busca do novo: um iraniano que lidera uma escola de criatividade e tecnologia, um designer alemão que trabalha em desenvolvimento de novos produtos e serviços para grandes corporações e um italiano que tem uma startup e trabalha com a escola do iraniano. Eles têm perspectivas bastante diferentes de mundo, idades diferentes, círculos de amigos e de trabalho bastante distintos.

O alemão me perguntou do Brasil e da crise atual, um assunto que dez entre dez vezes ativa um modo Fernanda-wannabe-professora-de-história. Depois de voltarmos a 1500, passando pela descoberta do ouro, 1808, ditadura até chegar ao presente (pobres dos três, eu sou uma chata quando se trata de explicar para as pessoas que o Brasil é mais do que elas vêem na televisão e lêem na The Economist), começamos a falar sobre a tendência populista no mundo. Falei das eleições esse ano e da minha preocupação a respeito.

Um dos movimentos sociais mais interessantes que eu observo no mundo nesse momento é o localismo. A volta da força das cidades, a discussão sobre o que os americanos batizaram de sanctuary cities e um crescente aumento da consciência de ser cidadão de um local, antes de cidadão de um país. Falamos sobre algumas das cidades do mundo que lideram esse movimento social. Eu me lembrei que, quando morava na Inglaterra, podia votar na eleição para prefeito, ainda que não fosse cidadã inglesa, e o quanto aquilo havia me marcado.

Como historiadora frustrada que sou, relembrei alguns pontos do feudalismo e mesmo alguns elementos da história de grandes impérios: era romano e não italiano, por exemplo.

Nesse caso, a inovação das cidades em sua gestão não tem nada de muito novo, mas, talvez, algo que sempre tenha feito sentido: o espaço em que você vive, a comunidade com que interage, é onde você de fato tem impacto. Eu me perguntei se a gente não inventou essa coisa de governos federais em mais uma tentativa capitalista de gerar escala. Inclusive no acúmulo de poder.

Algumas das empresas mais bem-sucedidas do mundo aplicam as três interpretações descritas no início deste texto. Essas empresas entenderam que há ganhos de escala com a sofisticação tecnológica e com a queda vertiginosa de custo de adoção de quase todas as tecnologias que permeiam nossa capacidade produtiva. A partir daí, as companhias partiram para enxergar inovação como cultura organizacional: é necessário encontrar novas formas de gerar receita. Afinal, as competências viram commodity cada vez mais rápido e as organizações hoje têm de ser orientadas ao propósito e não à produção. Ao mesmo tempo, para poder perseguir novas oportunidades, é importante que o negócio seja sustentável. A próxima e melhorada versão de seu produto e serviço É NECESSÁRIA para a gestão de curto e médio prazo. Finalmente, na medida em que o mundo e a sociedade se reorganizam em um velocidade maior do que jamais vimos, implementar processos que gerem maleabilidade para a organização e as pessoas que a compõem é alicerce.

Em tempos em que uma simples palavra pode determinar o sucesso ou insucesso de um ser humano, de uma organização e até de uma economia inteira, a mim parece crucial parar para refletir, com calma e profundamente, sobre o significado da mesma. Afinal de contas, tudo o que podemos afirmar com certeza é que o que vem depois é diferente do que o que existe hoje. E diferente não significa necessariamente novo.

Fonte: Época Negócios[:]


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