Setor industrial tenta manter nível de inovação de produtos e processos
[:pb]Expectativa de retomada da economia gera otimismo, mas relatório mostra que pode levar tempos para voltarmos, e então superarmos, os investimentos em inovação de anos anteriores
Por: Ana Carolina Nunes
GUTO FERREIRA, PRESIDENTE DA ABDI. BRASIL PRECISA DAR MAIS URGÊNCIA ÀS INOVAÇÕES DE PRODUTOS E PROCESSOS PARA SER COMPETITIVO. (FOTO: DIVULGAÇÃO/ABDI)
Relatório da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ADBI) em parceria com a Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que a melhora no desempenho da economia no último trimestre de 2017 trouxe otimismo para a indústria. O relatório em questão é o Sondagem de Inovação, divulgado trimestralmente e que monitora inovação em processos ou em produtos na indústria brasileira.
Entre as empresas entrevistadas, 44,1% afirmaram que haviam realizado alguma inovação. Para o presidente da ADBI, Guto Ferreira, essa reação vem como evidência da retomada econômica. Destaca-se o fato de que 70,8% das empresas ao menos mantiveram seus gastos com inovação no 4º trimestre de 2017, a maior proporção da série, iniciada em 2010. Por outro lado, a parcela de empresas que aumentou os gastos com inovação caiu de 19,6% para 11%.
Um bom representante da busca por inovação no Brasil vem do agronegócio e das agritech, startups que atuam no setor. “Temos a capacidade pra liderar globalmente áreas de agroprecisão, sensores de colheitadeira, utilização de drones e big data do campo”, afirmou Ferreira em conversa com a Época NEGÓCIOS. Veja a entrevista completa:
Mais da metade das empresas pesquisadas declarou estar otimista em relação às perspectivas de inovação em produtos ou processos no 1º trimestre de 2018, e 50,6% delas planejam inovar. O governo divulgou uma redução na previsão para o PIB 2018, de 2,97% para 2,5%. De que forma isso vai impactar nas projeções de alta em inovação e P&D [Pesquisa & Desenvolvimento] feitas pelo relatório para o 1T2018?
O cenário não muda. As empresas têm aumentado o investimento pois passaram a entender que essas inovações reduzem custos e aumentam a competitividade. Já P&D é um processo mais longo, presente em empresas farmacêuticas, químicas e de petróleo e gás, onde existe investimento maior. São essas as áreas que estão sofrendo mais com a demora da retomada.
Algum dado do relatório traz preocupação?
Um dado que pode preocupar e acender um alerta é aquele que mostra que empresas estão parando seus processos de P&D. Hoje, o que está gerando dinheiro no mundo são as inovações de curto prazo. Como o Brasil nunca se preparou para ser um polo de P&D, as inovações daqui são de menor valor agregado também. Então diminuir ou parar investimento em P&D não é bom sinal.
O relatório mostra aumento na proporção de empresas que inovaram em produtos e/ou processos e a razão disso é maior diversificação de quem inovou no período. Quais indústrias trouxeram essa diversificação?
Em geral foram empresas de setores mais tradicionais, que foram conservadores a vida toda e estão começando a se modernizar, como o de calçados, que passou a inovar. Como? Com solados mais consistentes, com reutilização de borracha de pneus, com mudanças no design.
Como as startups podem ser consideradas nesse processo de incremento da inovação industrial?
Startups têm hoje a capacidade de mudar todo o processo produtivo nacional. O relacionamento entre as duas partes é bom para a startup, que tem chance de ganhar escala, e para a indústria, que inova. A ABDI tem um grande programa de startups em conexão com indústrias, por exemplo. Dentro do programa temos instituições de apoio, com ABStartup e Startup Weekend. Nos conectamos a elas e a algumas universidades, como a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mas as startups nas universidades ainda estão tentando se encontrar. É um ambiente bastante conservador e tradicional. A academia tem que entender melhor como trabalhar esse potencial dos alunos dentro do campus.
Uma universidade referência na Alemanha ou nos Estados Unidos tem 1 bilhão de dólares ou mais injetados. A educação tem que gerar valor e isso só vai acontecer se a academia estiver conectada. É uma mudança completa de como a gente enxerga a universidade, é criação de inovação. Isso mantem o aluno, cria valor na educação e ainda é ganho para as empresas, que passam a ter mão de obra qualificada, um jovem desenvolvendo produtos, acompanhado por educadores.
O relatório mostra que o agronegócio é o único cujo indicador que mede dispêndios com inovação cresce pelo terceiro trimestre consecutivo. Ao mesmo tempo, entre os setores produtivos, o agronegócio é o que menos tem empresas com departamentos voltados à inovação (menos da metade). Qual é o impacto disso?
O Brasil tem grande potencial nas agritechs, as startups da indústria agro. Temos a capacidade para liderar globalmente áreas de agroprecisão, sensores de colheitadeira, utilização de drones e big data do campo. A questão é que para isso acontecer estamos disputando com outros países. Em Israel, também já estão trabalhando e investindo em agro. A diferença é que Israel vê agricultura como precisão, tecnologia, e o Brasil, como commodity. O Brasil não precisa deixar de vender commodity, mas precisa dar mais urgência a produtos e valor agregado nessa cadeia de valor. Temos uma startup no Mato Grosso, a AgriHub, que está trabalhando com grandes empresas do setor para identificar pragas e perfis de solo, que é um bom exemplo.
Além da agroindústria, qual seria outro setor com potencial a ser explorado aqui no Brasil?
O setor têxtil. Hoje, temos fábricas e confecções do futuro, com máquina falando máquina e exemplos de indústria 4.0 nesse segmento. São produzidas roupas com chips e conectadas a gadgets, que podem extrair dados ou mensurar informações de quem as usa. A área de defesa do Brasil também é muito moderna, com possibilidade de exportação de nossa inovação, temos drones, armamentos e patrulhamento de fronteira.
Quais são os gargalos em inovação no Brasil em crise?
Um deles é a falta do senso de urgência. China, Alemanha e EUA, entre outros, estão tomando esse espaço rapidamente. A crise é a mãe de toda a inovação. Se não aproveitarmos esse espaço na velocidade que a tecnologia pede, vamos ficar expostos. Inovação é senso de urgência e dinheiro, claro. Quem corre mais riscos chega mais rápido ao mercado global.
A educação é outro ponto. Estamos discutindo a indústria 4.0, mas se o estudante de hoje não for qualificado desde o ensino fundamental, onde deveria aprender economia, programação e gestão de risco, ele não estará bem preparado. Temos de lembrar que, em 15 anos, em torno de 300 milhões de postos de trabalho vão surgir relacionados a novas tecnologias. Isso significa que temos que atualizar o jovem agora. E mesmo aquele com qualificação ultratecnológica não tem garantia de manutenção de seu trabalho.
E como a esfera pública deve atuar nesse cenário?
As políticas públicas não podem demorar o que elas demoraram nos últimos 15 anos; ou criamos senso de urgência do setor público e privado ou continuaremos a ser um país de terceiro mundo. O governo tem que regular menos a inovação até que se tenha uma demanda. Se criar um milhão de regras agora, vai matar a inovação no Brasil.
Fonte: Época Negócios[:]